sexta-feira, 10 de junho de 2011

Poemas espaciais, poemas especiais!



Via Láctea 

 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

 (Olavo Bilac)
     
        Neste poema integrante de trinta e cinco da obra de Olavo Bilac, “Via Láctea”, é um bom exemplo de rima, ou hometeleuto, que consiste na repetição de sons no final das palavras, composto na forma de um soneto, ou seja, quatorze versos divididos em dois quartetos e dois tercetos ostentando dez sílabas poéticas, os famosos versos decassílabos. As rimas são compostas em no formato; A-B-A-B /B-A-BA /C-D-C / E-D-E. São elas: Certo/desperto, entanto/espanto, enquanto/ pranto, aberto/ deserto, amigo/contigo sentido/ ouvido, entendê-las/ estrelas.




Satélite
Fim de tarde.

No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,

Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
  Satélite.

Ah Lua deste fim de tarde,

Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia,

Gosto de ti assim:
Coisa em si,
                       - Satélite.                         

 (Manuel Bandeira)
         
   Esse poema apresenta estrutura amplamente diversa do anterior, em comum somente quatro estrofes, os versos são livres, isto é, irregulares. Com relação aos recursos sonoros há uso de aliteração como nos versos;
Desmetaforizada,

Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia.


                         Pulsar*
                            (Augusto De Campos)


           O último poema é semiótico rico visualmente, muito embora a intenção seja analisar os recursos sonoros, não poderia faltar nesta trilogia “espacial” o poema de Augusto de Campos, mas vou fazer analise dentro do contexto da disciplina, para tanto transcrevo agora os versos de uma maneira mais usual, sem a sofisticação concretista:


Onde quer que você esteja
Em Marte ou Eldorado
Abra a janela e veja
O pulsar quase mudo
Abraço de anos-luz
Que nenhum sol aquece
E o oco escuro esquece

Há o uso de três recursos nesses versos: a rima, assonância, e aliteração.

Rima; esteja/ veja aquece/esquece
Aliteração; Onde quer que você esteja/
Em Marte ou eldorado/ Abra a janela e veja
Assonância; Que nenhum sol aquece / 
E o oco escuro esquece

*Pulsar: Sentido substantivo; “Radiostrela que emite ondas de rádio com a duração de 35 milionésimos de segundo” (Dicionário Houaiss). Os outros sentidos da palavra também se 
aplicam ao poema.








Um comentário:

  1. Poemas espaciais e poesias especiais compõem a versatilidade e criatividade deste Blog. Não preciso dizer que sou fã número 1 do Grilo da Lua um blog " Bandeira de Augustus".
    Perfect!!!
    Bjs.
    Ione Kadlec

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